sexta-feira, 31 de maio de 2019


...deve ser a obra o principal fundamento para se pensar um artista, e não o contrário. Devem ser as suas criações, suas invenções plásticas, os instrumentos privilegiados para se compreender o autor.
E isto por que o sentido de uma obra de arte não é explicável pela vida do artista, como escreveu Merleau-Ponty (1966, pp. 34-35)

[...] isso a que se chama inspiração deve ser tomado ao pé da letra, pois há realmente inspiração e expiração do Ser, respiração no Ser, ação e paixão tão pouco discerníveis, que já não se sabe mais quem vê e quem é visto, quem pinta e quem é pintado. Diz-se que um homem nasceu no momento em que aquilo que, no fundo do corpo materno, não passava de um visível virtual torna-se ao mesmo tempo visível para nós e para si. A visão do pintor é um nascimento continuado. (Merleau-Ponty, 1964, p. 32)

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062014000200013

quarta-feira, 15 de maio de 2019

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. 
Em cofre não se guarda coisa alguma. 
Em cofre perde-se a coisa à vista. 
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. 
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. 
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro 
Do que de um pássaro sem vôos. 
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: 
Para guardá-lo: 
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: 
Guarde o que quer que guarda um poema: 
Por isso o lance do poema: 
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cícero