domingo, 30 de outubro de 2016

Bem no fundo (Paulo Leminski)


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

“Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás …"


(W. Wordsworth)

domingo, 9 de outubro de 2016

Poema de Ana C.

Amor, isto não é um livro, sou eu, sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é noite? Estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem, teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça. 


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Bernardo é quase uma árvore - Manoel de Barros


Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios – e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)

domingo, 3 de julho de 2016

"Opinião sobre a pornografia", de Wislawa Szymborska

"Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias - é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kama Sutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina
espia a rua."

sábado, 18 de junho de 2016

Maiakovski, em "Como fazer versos?", escreve:

"Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta, para que escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Damos o nome de poeta justamente à pessoa que cria essas regras poéticas.
Algumas palavras simplesmente pulam fora, e não voltam nunca mais, outras se detêm, reviram-se e revolvem-se algumas vezes, antes que você sinta que cada palavra ficou no lugar certo (é a este sentimento que se desenvolve com a experiência que chamamos de talento).
Na maioria das vezes, o que surge primeiro é a palavra mais importante, aquela que caracteriza o sentido do verso, ou a palavra a ser rimada. As demais palavras vêm e são colocadas no lugar na dependência dessa palavra mais importante.
Quando o essencial está concluído, vem-nos de repente a sensação de que o ritmo se quebra; falta uma pequena sílaba, um pequeno som. Você passa a costurar de novo todas as palavras, até o frenesi.
O esforço de organizar o movimento, de organizar os sons ao redor de si, depois de determinar o caráter destes, as suas peculiaridades, são um dos mais importantes trabalhos poéticos permanentes: são as preparações rítmicas.
O ritmo é a força básica, a energia básica do verso. Não se pode explica-lo, disto só se pode falar como se fala do magnetismo, ou da eletricidade, que são formas de energia.
O ritmo pode ser um só em muitos versos, até em toda a obra de um poeta, e isto não torna o trabalho monótono, pois o ritmo pode ser tão complexo e difícil de materializar que não se consiga alcançá-lo mesmo em alguns poemas longos.
O poeta deve desenvolver em si justamente esse sentimento de ritmo, e não decorar as medidas alheias, ou mesmo o verso livre canonizado; trata-se de ritmos adaptados a alguns casos concretos e que servem unicamente para esses casos concretos."

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Começo a Conhecer-me. Não Existo

Começo a conhecer-me. Não existo. 
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, 
ou metade desse intervalo, porque também há vida ... 
Sou isso, enfim ... 
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. 
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. 
É um universo barato. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar."

Wittgenstein. Tractatus, 7.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo

Ludwig Wittgenstein