sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Graças às coisas (Rutger Kopland, poeta e psiquiatra)

 UM


A manhã em que as coisas renascem em que uma luz fraca nasce do acaju, da argentaria, da porcelana. Em que o pão volta a cheirar pão, o bule florido de chá a cheirar chá e o ar a cheirar gente idosa. Em que se ouve sussurrar: "Deus, abençoe também esse dia até à eternidade, amém"


DOIS


A tarde em que as coisas voltam a ser aquela tarde, em que as manchas de luz dançam como borboletas numa vidraça branca agitada, em que a fruteira cheira a fruta, as cadeiras cheiram a verga, o ramo de flores  no vaso, a lilás, a floreira, a terra, na estufa um silêncio de morte, ouvem-se as agulhas de tricô e volta-se a ouvir o folhear do jornal, em que o portão chia e o cascalho estala suavemente...


TRÊS


A noite em que as coisas voltam a querer desaparecer, o tapete vermelho, as cortinas de veludo castanho a desejar a escuridão em que o cachimbo no cinzeiro volta a cheirar fumo, a banana à sua polpa, o leite à leite fumegante antes de nos deitarmos, em que na sala, num silêncio de morte, a palavra ressoa, o livro volta a fechar, tudo se cala e o relógio faz tique taque


QUATRO


A noite em que as coisas voltam a ser sobras de si mesmas, em que o quarto volta a cheirar a lençóis lavados, madeira velha e  lavanda, em que a janela, num silêncio de morte volta a respirar, como cumes que dormem ao vento


CINCO


O momento, chamam-o manhã, tarde ou noite, em que as coisas recomeçam. Chamam-o uma casa em que a luz, os cheiros e os sons chegam e partem. Mas é a morte que procura palavras para o momento em que eu, não importa o que ele diz, sou eu.