segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram. O céu infinito permanece estático sobre as suas cabeças e a água, inquieta, cutuca a areia. Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram, com muitas danças e algazarras. Elas constroem suas casas com areia e brincam com as conchas vazias. Com as folhas secas elas tecem seus barquinhos e os colocam, sorridentes, para flutuar na vastidão do mar. As crianças brincam na praia dos mundos. Elas não sabem nadar, e tampouco arremessar as redes. Pescadores de pérolas mergulham atrás de pérolas, mercadores navegam em seus barcos, enquanto as crianças catam pequeninas pedras, e depois as espalham novamente. Elas não buscam por tesouros ocultos, e tampouco sabem arremessar as redes. As ondas explodem na beira, as gargalhadas, e toda a praia cintila, com um sorriso em preto e branco.


As ondas assassinas cantam baladas sem sentido para as crianças, assim como a mãe que embala o seu bebê no berço. O mar brinca com as crianças, e toda a praia cintila, com um sorriso em preto e branco. Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram. A tempestade ronda pelo céu sem trilhas, os navios naufragam pelo mar sem rotas, a morte está à solta, e as crianças brincam. Na praia dos mundos sem fim ocorre o grande encontro de todas as crianças.

 [Poema de número 60 - Gitanjali - TAGORE] 

domingo, 22 de setembro de 2024




O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos

Marguerite Yourcenar

terça-feira, 9 de julho de 2024

 Melancolia é o nome da saudade sem esperança.

"Vietnã", de Wislawa Szymborska

 

"Mulher, como você se chama? - Não sei.

Quando você nasceu, de onde você vem? - Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? - Não sei.
Desde quando está está aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? - Não sei.
De que lado você está? - Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. - Não sei.
Tua aldeia ainda existe? - Não sei.
Esses são teus filhos? - São.

 "A vida, essa senhora banguela, não teme a feiura e faz coisas

medonhas com sua boca murcha que não lhe inibe as gargalhadas. Ao

contrário, gosta de nos exibir a extensão da mordida que nos dará com

deboches e ironias ao invés de dentes, para nos fazer pagar a língua

enquanto giramos estonteados, pra lá e pra cá, entre suas gengivas."

Carla Madeira - "A natureza da mordida"

 Partir! Nunca voltarei. Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, A gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia”.

Fernando Pessoa, Álvaro de Campos

sábado, 13 de janeiro de 2024

Na fresta da palavra


Um mundo suave
Escorre língua afora
- seu afago –
Rio que brota
Na fresta da palavra
Braços abertos de reconstruir o mundo
Aquilo que cala,
mata.

AMORIM, Anaximandro. A euforia do corpo. São Paulo: Ed. Patuá, 2022.

 “O corpo é uma tentação!/ Não há corpo sem libido/ Não há corpo sem prurido / Não há nada que possa comprimir/ a expressão do desejo/ [Nem patuás, nem qualquer amor pelo avesso] / O homem é feito de carne/ ossos, músculos e vontade [...].

 O espírito humano está exposto às mais surpreendentes injunções. Incessantemente ele tem medo de si mesmo. Seus movimentos eróticos o aterrorizam. A santa se desvia com pavor do voluptuoso: ela ignora a unidade entre as paixões inconfessáveis deste e as suas próprias. 

(O erotismo - BATAILLE, 2021 p. 29)

As rédeas do corpo


Tomar as rédeas do
Corpo
Como quem doma as palavras:
Aquilo que se expande
Ganha sentido novo.
(Liberdade é robustecer-se
Contra a bruteza velada
dos dias
até se tornar seu
próprio dono).

AMORIM, Anaximandro. A euforia do corpo. São Paulo: Ed. Patuá, 2022.