domingo, 12 de novembro de 2017


 UMA PALAVRA SOBRE ESTATÍSTICAS(*)

 Em cada cem pessoas
 Aquelas que sempre sabem mais:
 cinquenta e duas.
 Inseguras de cada passo:
 quase todo o resto.
 Prontas a ajudar,
 desde que não demore muito:
 quarenta e nove.
 Sempre boas,
 porque não podem ser de outra maneira:
 quatro — bem, talvez cinco.
 Capazes de admirar sem invejar:
 dezoito.
 Levadas ao erro
 pela juventude (que passa):
 sessenta, mais ou menos.
 Aquelas com quem é bom não se meter:
 quarenta e quatro.
 Vivem com medo constante
 de alguma coisa ou alguém:
 setenta e sete.
 Capazes de felicidade:
 vinte e alguns, no máximo.
 Inofensivos sozinhos,
 selvagens em multidões:
 mais da metade, por certo.
 Cruéis,
 quando forçados pelas circunstâncias:
 é melhor não saber
 nem aproximadamente.
 Peritos em prever:
 não muitos mais
 que os peritos em adivinhar.
 Tiram da vida nada além de coisas:
 trinta
 (mas eu gostaria de estar errada).
 Dobradas de dor,
 sem uma lanterna na escuridão:
 oitenta e três,
 mais cedo ou mais tarde.
 Aqueles que são justos:
 uns trinta e cinco.
 Mas se for difícil de entender:
 três.
 Dignos de simpatia:
 noventa e nove.
 Mortais:
 cem em cem —
 um número que não tem variado.
  Wislawa Szymborska

domingo, 29 de outubro de 2017

"Para liquidar os povos - dizia Hubl -, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-lhes os livros, a cultura, a história. E outra pessoa qualquer escreve-lhes outros livros, dá-lhes outra cultura e inventa-lhes outra história. Em seguida, o povo começa lentamente a esquecer o que é e o que era. O mundo à sua volta esquece ainda mais depressa."
| Milan Kundera |
- "O Livro do Riso e do Esquecimento"

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(...) Noite vazia. Noite indecisa. Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
Carlos Drumond de Andrade
(...) a imagem não é um simples corte praticado no mundo dos aspectos visíveis. É uma impressão, um rastro, um traço visual do tempo que quis tocar, mas também de outros tempos suplementares - fatalmente anacrônicos, heterogêneos entre eles - que, como arte da memória, não pode aglutinar. (DIDI-HUBERMAN)

sábado, 23 de setembro de 2017

“É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós”. F. KAFKA

domingo, 10 de setembro de 2017

 Retrato de uma princesa desconhecida

      Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
 Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
      Para que a sua espinha fosse tão direita
         E ela usasse a cabeça tão erguida
    Com uma tão simples claridade sobre a testa
 Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
     De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
     Servindo sucessivas gerações de príncipes
         Ainda um pouco toscos e grosseiros
            Ávidos cruéis e fraudulentos

         Foi um imenso desperdiçar de gente
        Para que ela fosse aquela perfeição
           Solitária exilada sem destino
em "Dia do mar", 1947

                      Sophia de Mello Breyner Andresen
Amado seja aquele que tem percevejos,
o que anda sob a chuva com sapatos furados
o que vela o cadáver de um pão com dois fósforos,
o que prende um dedo  numa porta,
o que não tem aniversário,
o que perdeu sua sombra num incêndio,
o animal, o que parece um papagaio,
o que parece um homem, o pobre rico,
o puro miserável, o pobre pobre!

César Vallejo

domingo, 30 de julho de 2017

"Que é isto que aperta meu peito? Minha alma quer sair para o infinito ou a alma do mundo quer entrar em meu coração?”

da obra Pássaros Perdidos.

Rabindranath Tagore
"Acho graça quando ouço dizer que os peixes dentro d'água estão com sede.
Você vaga inquieto, de floresta em floresta, enquanto a realidade está dentro da sua morada. A verdade está aqui! Vá aonde quiser, Benzeras ou Mathura, até que você tenha encontrado Deus em sua alma, todo o mundo lhe parecerá inexpressivo."


Tagore (1861-1941) 

Amor pacífico e fecundo (O Coração da Primavera)

Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.
Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!"


Rabindranath Tagore

segunda-feira, 3 de julho de 2017

algo sobre arte






A admiração de Schopenhauer pelos pintores flamengos de naturezas mortas, que frequentemente representavam cenas domésticas “banais” em seus quadros, explicita que o filósofo acreditava que até mesmo os objetos mais “insignificantes” de nosso cotidiano poderiam se tornar belos caso um gênio soubesse enxergar neles suas Idéias e fixá-las em sua obra, tornando-as acessíveis aos demais humanos. 
Pode ser julgado “belo” todo objeto, artístico ou natural, capaz de “despertar” naquele que o observa um estado contemplativo, de intuição pura, durante o qual se calam temores e esperanças, ânsias e preocupações


"artista é aquele que fixa e torna acessível aos demais humanos o espetáculo de que participam sem saber"    Merleau Ponty


sábado, 1 de julho de 2017

'Você vai ficar por quanto tempo?
Preparo um café ou preparo a minha vida?'

( Caio F. Abreu )


O tempo é um rio que leva ou afoga. Nesse rio, se nada. E nele, ninguém manda.
Os grandes homens foram os que entenderam bem os seus tempos.
Entenderam que não amanhece porque o galo canta, mas que o galo canta porque amanhece.
Imre Madách

sábado, 17 de junho de 2017

"Os primeiros passos maori até a criação são os seguintes: há o vazio original, e a esse vazio se seguem: o primeiro vazio, o segundo vazio, o vasto vazio, o extensíssimo vazio, o seco vazio, o vazio generoso, o vazio delicioso, o vazio atado, a noite, a noite suspensa, a noite fluente, a noite gemente, a filha do sono intranquilo, a alvorada, o dia permanente, o dia brilhante e, por último, o espaço."
Júlio Cortázar, La vuelta al día en ochenta mundos

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A vida é curta.
Quebre suas próprias regras.
Esqueça rápido.
Beije lentamente e apaixonadamente.
Ame verdadeiramente e totalmente.
Ria de forma incontrolável e fácil.
E nunca se arrependa de qualquer coisa que o faça sorrir.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ainda estamos em uma sociedade líquida, mas em que nascem sonhos de uma sociedade menos líquida.
Bauman
گفتی که: بیا که باغ خندید و بهار
شمعست و شراب و شاهدان چو نگار
آنجا که تو نیستی از اینهام چه سود؟
 و آنجا که تو هستی خود از اینها به چه کار؟
Vem ao pomar, é chegada a primavera
Há vinho, luz e namorados na romãzeira
Se não vieres, estes não têm importância
Se tu vieres, estes não têm importância
Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, mais conhecido como Rūmī

Evohé Bakkhos

Evohé Deus que nos deste
A vida e o vinho
E nele os homens encontraram
O Sabor do sol e de resina
E uma consciência múltipla e divina.
(Sophia de Mello Breyner)

terça-feira, 13 de junho de 2017

"Se levarmos em conta que amar outra pessoa não é amar o que projetamos nela e sim a sua humanidade e singularidades, não será difícil compreender que o amor é um desafio nos tempos de modernidade líquida. "

Bauman
"A arte humana não é, como o fazem crer os burgueses bem-intencionados, a fabricação de objetos ditos ‘belos’. A arte humana é o gesto pelo qual o homem imprime sua vivência sobre o objeto de sua vocação, a fim de realizar-se nele, imortalizar-se nele. (...) Todo objeto assim informado é uma 'obra de arte', seja equação matemática, instituição política ou sinfonia. (...) Toda vivência implica conhecimento, valor e sensação, e implica-os simultaneamente. Dividir os objetos informados, a 'cultura', segundo os três rótulos, é ignorar que o homem é um ente que, por vocação, exprime vivências adquiridas em objetos. Um ente que, por vocação, 'trabalha'. E que toda obra humana é 'arte', resposta à provocação feita por determinado objeto.” 

Villem Flusser, Vampyroteuthis infernalis, 1981

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Pelo prazer de engordar sorrindo

Não, eu não vou começar a dieta amanhã. Quero te comer cada pedaço sem nem ao menos mastigar. Vou engolir seus olhos, suas orelhas, seu cabelo, sua boca. Vou passar mal. Quero ser julgada pela igreja, tendo pecado todos os sete milhões de pecados que eu puder pecar. Quero que me chamem de herege e me queimem na fogueira. Quero ir para a forca. E que a força dos seus braços não seja o bastante para se desvencilhar de mim. Não quero um pio. Nenhuma reclamação. Nenhum olhar 43, nem 69, nem 007.
Vou cuspir seus dentes enquanto palito os meus e, sem desespero, você vai gostar. Vou chupar seus ossos e a carne também. Lamber os beiços, morder os lábios, sugar a língua. Vou cortar sua pele com faca de serra e ponta redonda, daquelas de passar a manteiga no pão, só para demorar mais. Não vou jogar fora nem as unhas, quero que elas me arranhem por dentro e que seus dedos gentilmente me arranquem os medos que me impedem de ficar.
Quero sua artéria aorta pulsando dentro de mim. Quero me envenenar das suas venosas. Quero adoçar a sua bile antes de te deglutir. Quero te temperar com canela e jogar os cravos fora. Quero ser a borboleta do seu estômago; a rosa vermelha dos seus instintos; a orquídea branca do seu coração. Quero que seus olhos vejam o que ninguém nunca viu. E quando eu chegar ao átrio, que o ventrículo não esmoreça, que o tesão não desobedeça e o amor não desapareça. Que os seus músculos me destruam e eu te vomite sorrindo. Que você ressuscite odiando. Que eu não me despeça chorando. Que você me tempere com sal a gosto e esqueça o banho-maria. Que me engula, me lamba, me chupe, me coma, me tenha. Que a gente engorde e que corramos por três noites seguidas, livrando-se do mal pelas gotas de suor.
E que a minha dieta fracasse todos os dias, pra eu poder começar tudo outra vez.
Por Letícia Flores Montalvão

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Um dia, conheci a mulher do pastor, que me contou que, quando era jovem e deu à luz a seu primeiro filho, não acreditava na punição corporal, embora bater nas crianças naquela época fosse uma prática comum.
No entanto, quando seu filho estava com quatro ou cinco anos e fez uma travessura, ela decidiu, apesar de todos os seus princípios, bater nele pela primeira vez em sua vida. Ela disse ao filho para ir ao quintal e pegar um galho para esta finalidade.
O menino demorou para retornar e, quando voltou, tinha o rosto molhado de lágrimas. Ele disse: “Mamãe, não encontrei nenhum galho, mas uma pedra, que você poderá jogar em mim“.
Nesse momento a mãe se deu conta da situação percebida do ponto de vista da criança: se a minha mãe quer me machucar, não importa como vai fazer isso, ela pode ter o mesmo sucesso usando uma pedra.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

“Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo.”

— Nietzsche em “A Gaia Ciência”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Teresa

Brasília, 3 de fevereiro de 2017.

Teresa,

de volta à rotina, nossa primeira decisão. Quebrá-la. Ao meio. Desfazer a sensação de que voltar para casa, retomar o calendário e usar relógio, celular e computador significa que estaremos, de novo, num mesmo lugar – só que num tempo diferente. Vamos mudar o tempo, então, rotina. Vamos mudar o lugar, então, rotina. Vamos nos mudar sem sair do lugar, nem do tempo. Enquanto estávamos de férias, nossa amiga Lu e sua avó Marinês cuidaram dessa caixinha de surpresa para vocês: cores por todas as paredes da casa. Beringela, azul, verde, rosa, vermelho, preto. Os quadros ainda estão no chão. Doamos um sofá. Desenhamos móveis novos para os seus quartos. As plantas estão a caminho. Mais quadros. Fotos. Memórias outras. Olha, filha, tempo novo precisa disso. No mesmo lugar (mas tão diferente), já somos nós, de novo, com novas cores (mas tão iguais). Somos nós mesmos dando o recado para esse mundo que mora em nós. Ou você muda, querido mundo, ou mudamos nós. Mudaremos, querido mundo, todas as cores – mesmo as que mal sabemos o nome. Teremos paredes assim dentro de nós, coloridas. Teremos muros nas cidades assim, grafitados, pixados, riscados. Sobre o cinza dos monótonos, debilitados pela falta de amor, faremos um campeonato de paint-ball em praça pública. Vamos colorir os muros alheios – para que a gente possa se abraçar em paz sobre os escombros do que é desumano e acinzentado. Aliás, quem estiver cinza que fique a postos. Amor é tinta que temos. De sobra.

Do seu pai,
Pedro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.

- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.

E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.

Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.

És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.

E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.

Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.

Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo

Herberto Helder

OS ESPAÇOS DO SONO



À noite há naturalmente as sete maravilhas do mundo e a grandeza e o trágico e o encanto.
Nela as florestas se chocam confusamente com criaturas de lenda escondidas nos bosques.
Há você.
Na noite há o passo do caminhante e o do assassino e o do agente de polícia e a luz do revérbero e a da lanterna do trapeiro.
Há você.
Na noite passam os trens e os barcos e a miragem dos países onde é dia. Os derradeiros sopros do crepúsculo e os primeiros arrepios da aurora.
Há você.
Uma ária de piano, um brilho de voz.
Uma porta range. Um relógio.
E não somente os seres e as coisas e os ruídos materiais.
Mas ainda eu que me persigo ou sem cessar me ultrapasso.
Há você a imolada, você que eu espero.
Por vezes estranhas figuras nascem no instante do sono e desaparecem.
Quando cerro os olhos, florações fosforescentes aparecem e murcham e renascem como carnosos fogos de artifício.
Países desconhecidos que percorro em companhia de criaturas.
E há você sem dúvida, ó bela e discreta espiã.
E a alma palpável do espaço.
E os perfumes do céu e das estrelas e o canto do galo de há 2 000 anos e o choro do pavão em parques em chama e beijos.
Mãos que se apertam sinistramente numa luz baça e eixos que rangem sobre estradas medusantes.
Há você sem dúvida que não conheço, que conheço ao contrário.
Mas que, presente em meus sonhos, te obstinas a neles se deixar adivinhar sem aparecer.
Você que permanece inapreensível na realidade e no sonho.
Você que pertence a mim por minha vontade de possuí-la em ilusão mas que não aproxima seu rosto do meu como meus olhos fechados tanto ao sonho como à realidade.
Você que a despeito de uma retórica fácil em que a onda morre nas praias, em que a gralha voa em usinas em ruínas, em que a madeira apodrece rachando-se sob um sol de chumbo.
Você que está na base de meus sonhos e que excita meu espírito pleno de metamorfoses
e que me deixa sua luva quando beijo sua mão.
À noite há as estrelas e o movimento tenebroso do mar, dos rios, das florestas, das
idades, das relvas, dos pulmões de milhões e milhões de seres.
À noite há as maravilhas do mundo.
À noite não há anjos da guarda, mas há o sono.
À noite há você.
No dia também.


ROBERT DESNOS

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

“Na poesia — mesmo em prosa — eu me vingo da minha frágil condição humana, tão rude e pesada, e posso ser profeta sem que me detenha a polícia ou me exterminem meus vizinhos da esquerda ou da direita, que não passam de pequenos burgueses. Graças à poesia posso mostrar-me nu em público, ridicularizar o ridículo (em mim, inclusive), tocar a fanfarra sem ser data nacional e fazer-me diabólico quando não acredito nem em Deus. Filtro-me através da poesia como uma água salobra e sem dignidade, cheia do lodo dos séculos e das algas impuras e despidas de mistério — eu que sou hipocampo. Faço da poesia o meu hino de revolta mas também de perdão, que entoo em pleno silêncio e sem nenhum coro estranho, a não ser o dos meus fantasmas, que afinal são eu mesmo sob a forma de mil espelhos e de ecos inenarráveis.” 
(Campos de Carvalho)