quarta-feira, 15 de julho de 2020

Margarida a Violeta conhecia, 
uma era cega a outra bem louca vivia, 
a cega entendia o que a louca dizia 
e terminou vendo o que ninguém mais via...

Clarice Lispector

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Lembrança de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.


Álvares de Azevedo 

quarta-feira, 20 de maio de 2020


"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!" 

Henry David Thoreau 
Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia. 
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.

domingo, 17 de maio de 2020


FUNDO DO MAR


No fundo do mar há brancos pavores, 
Onde as plantas são animais 
E os animais são flores. 

Mundo silencioso que não atinge 
A agitação das ondas. 
Abrem-se rindo conchas redondas, 
Baloiça o cavalo-marinho. 
Um polvo avança 
No desalinho 
Dos seus mil braços, 
Uma flor dança, 
Sem ruído vibram os espaços. 

Sobre a areia o tempo poisa 
Leve como um lenço. 

Mas por mais bela que seja cada coisa 
Tem um monstro em si suspenso.




Sophia de Mello Breyner Andresen | "Poesia", 1944

sexta-feira, 20 de março de 2020

 Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro

1. 
Em mim eu não vivo já,
E sem Deus viver não posso;
Pois sem Ele e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.

2. 
Esta vida que aqui vivo
É privação de viver;
E assim, é contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Que esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.

3. 
Ausente estando eu de ti,
Que vida poderei ter
Senão morte padecer,
A maior que jamais vi?
Pena e dó tenho de mim,
Pois se assim eu persevero,
Morrerei porque não morro.

4. 
O peixe que da água sai
Nenhum alívio carece
Que na morte que padece,
Afinal a morte lhe vale.
Que morte haverá que se iguale
Ao meu viver lastimoso,
Pois se mais vivo, mais morro?

5. 
Quando penso aliviar-me
Vendo-te no Sacramento,
Faz-me em mim mais sentimento
De não poder-te gozar;
Tudo é para mais penar,
Por não ver-te como quero,
E morro porque não morro.

6. 
Se me deleito, Senhor,
Com a esperança de ver-te,
Vendo que posso perder-te
Redobra-se em mim a dor;
Vivendo em tanto temor
E esperando como espero,
Morro sim, porque não morro.

7. 
Livra-me já desta morte,
Meu Deus, entrega-me a vida;
Não ma tenhas impedida
Por este laço tão forte;
Olha que peno por ver-te,
O meu mal é tão inteiro,
Que morro porque não morro.

8. 
Chorarei já minha morte
Lamentarei minha vida,
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh! Meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras:
Vivo já porque não morro?

Autor: São João da Cruz (1542-1591)

terça-feira, 17 de março de 2020

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Ricardo Reis

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                (Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                Pagã triste e com flores no
regaço.
12-6-1914
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 
 - 23.

" Meu corpo está solto, meus membros estão leves e livres. Todas as posturas prescritas lhes serão agradáveis. "
Bertold Brecht
"Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar." (Lacan)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

o silêncio das sereias*

franz kafka

tradução
† de luiz costa lima

Prova de que também meios insuficientes e mesmo infantis podem servir para a salvação.
Para preservar-se das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e deixou-se amarrar ao mastro. Naturalmente, há muito tempo qualquer viajante poderia ter feito algo semelhante (salvo aqueles que as sereias seduziam de longe), mas em todo o mundo se reconhecia que isso não seria de ajuda. O canto das sereias a tudo traspassava, até a cera e a paixão dos seduzidos teriam feito saltar mais do que mastros e cadeias. Contudo, embora talvez tenha ouvido falar a respeito, nisso não pensou Ulisses, que, com plena confiança no bocado de cera e nos laços das cadeias, na alegria inocente de seu estra- tagema, navegou ao encontro das sereias.
Mas as sereias têm uma arma mais terrível que seu canto: seu silêncio. Embora não haja sucedido, seria contudo pensável que alguém se salvasse de seu canto, mas por certo não de
seu silêncio. Ao sentimento de havê-las vencido com a própria força, à exaltação avassaladora consequente, nada de terreno pode resistir.

E, de fato, quando Ulisses chegou, as potentes cantoras não cantaram, fosse porque criam que a esse adversário só o silên- cio poderia arrebatar, fosse porque a aparência de felicidade, estampada na face de Ulisses, que só pensava na cera e nas cadeias, as fizera esquecer todo o canto.
Mas Ulisses, por assim dizê-lo, não escutou seu silêncio; acreditava que cantavam e só ele estava isento de ouvi-lo;
fugazmente, viu primeiro o menear de seus pescoços, o arfar de seus peitos, os olhos cheios de lágrimas, os lábios entre- abertos; mas acreditava que isso pertencesse as árias que, inaudíveis, o circundavam. Logo, porém, tudo deslizou de
seu olhar preso a distância; as sereias expressamente desa- pareceram e, justo quando se encontrava mais próximo delas, nada mais soube a seu respeito.

Elas, mais belas que nunca, porém, se erguiam e contorciam, deixavam a horrenda cabeleira ondular ao vento, cravavam as garras nas rochas; já não queriam seduzir senão que apenas o quanto possível prender o fulgor dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido naquele momento aniquiladas; mas assim permaneceram; apenas Ulisses delas escapou.
De resto, um apêndice foi aqui legado. Diz-se que Ulisses
era tão astuto, era tamanha raposa que mesmo as divindades do destino não conseguiam penetrar em seu íntimo; embora isso não seja concebível pelo entendimento humano, notou realmente que as sereias silenciaram e a elas opôs e aos deuses, como uma espécie de escudo, a dissimulação
acima mencionada.*


* [Nota da Editora] Este texto foi publicado em Mimesis e
a reflexão contemporânea
, organizado por Luiz Costa Lima (Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. Agradecemos ao tradutor a autorização para esta publi- cação.
† [Nota do Tradutor] Há
outra tradução brasileira
deste texto incluída em Franz Kafka. 
Parábolas e fragmentos. Tradução e introdução de Geir Campos. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.

* [N.T.] O título do relato, “Das Schweigen der Sirenen”, não foi dado por Kafka, mas por Max Brod, que o editou pela primeira vez no volume, publicado por ele e Hans-Joachim Schoeps, intitu- lado Beim Bau der chinesischen MauerUngedruckte Erzählun- gen und Prosa aus dem Nachlass(Berlim: G. Kiepenheuer Verlag, 1931). Originalmente, o relato aparece no chamado “caderno em oitavo”, em anotação de
23 de outubro de 1917. Porque não se desligava da moldura de diário — ou, mais corretamente, de reflexões dentro de um diário — sua primeira frase era: früh im Bett (“de manhã cedo na cama”). (Naturalmente, ela será omitida em suas transcrições como relato autônomo.) A presente tradução foi feita de acordo com Franz Kafka. Nachgelassene Schriften und Fragmente, II. In: Jost Schillemeit (org.). Fassung der Handschriften. Frankfurt am Main: Fischer, 1992, pp. 40-42. As diferenças com o texto editado por Brod, mantidas pelas edições comuns, concer- nem à pontuação da primeira frase do relato, em que o ponto final do original era substituído por dois-pontos, ao segundo parágrafo, em que o parênteses do original (“salvo aqueles que as sereias seduziam de longe”) era substituída por vírgulas e, no mesmo parágrafo, à eliminação, supostamente por Brod, de pas- sagem ainda menor, gar Wachs(“até a cera”), contida na frase que começa por Der Gesang der Sirenen (“O canto das sereias”).

edições chão da feira caderno de leituras n. 70
projeto gráfico: rafael camisassa julho de 2017
www.chaodafeira.com

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020


Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
Nasceu a 15 Outubro 1844
(Röcken, Alemanha)
Morreu em 25 Agosto 1900
(Weimar, Alemanha)
Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um filólogo, filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão do século XIX.
花間一壺酒。 A cup of wine, under the flowering trees;
獨酌無相親。 I drink alone, for no friend is near.
舉杯邀明月。 Raising my cup I beckon the bright moon,
對影成三人。 For her, with my shadow, will make three people.
月既不解飲。 The moon, alas, is no drinker of wine;
影徒隨我身。 Listless, my shadow creeps about at my side.
暫伴月將影。 Yet with the moon as friend and the shadow as slave
行樂須及春。 I must make merry before the Spring is spent.
我歌月徘徊。 To the songs I sing the moon flickers her beams;
我舞影零亂。 In the dance I weave my shadow tangles and breaks.
醒時同交歡。 While we were sober, three shared the fun;
醉後各分散。 Now we are drunk, each goes their way.
永結無情遊。 May we long share our eternal friendship,
相期邈雲漢。 And meet at last on the Cloudy River of the sky.
Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea…
(Tradução-pt:Poemas Chineses: Li Po e Tu Fu. [Por: Cecília Meireles]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.)
O QUE É
[Erich Fried. Trad. Vanderley Mendonça]
.
É um absurdo
diz a razão
É o que é
diz o amor
É azar
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desespero
diz a inteligência
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É imprudente
diz a cautela
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor
.
Was es ist
Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe

domingo, 5 de janeiro de 2020

Depois de ter você


Um dia você veio com mãos de alegria. E eu que buscava a felicidade, amei-te com um amor maior que tudo que pudesse existir em mim... Depois de ter você, como pensar em mim, sem tua companhia, sem meu nome ao som da tua voz, sem tua vida em minha vida... Assim que venham novos dias. Que eu saiba escrever poemas inspirados na tua presença, e que eu saiba agradecer a vida por ter me ensinado esta lição: Depois de ter você, eu também passei a ter a mim tão completamente... Aluísio Cavalcante Jr.