quinta-feira, 23 de novembro de 2023

LISPECTOR, C. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro. 1998.

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. 

Apesar de, se deve comer. 

Apesar de, se deve amar. 

Apesar de, se deve morrer. 

Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. 

Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. 

E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. 

Mas quero inteira, com a alma também. 

Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Tao Te Ching

 CAPÍTULO 54

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Bem plantado, não se desarraiga                                                                                              Bem abraçado, não se aparta                                                                                                   Assim                                                                                                                                    Filhos e netos não cessam de cultuar

Restaure seu corpo
Sua virtude será autêntica Restaure sua casa
Sua virtude será abundante Restaure sua província
Sua virtude será crescente Restaure seu reino
Sua virtude será farta Restaure seu mundo
Sua virtude será vasta

Assim, através do corpo percebe-se o corpo                                                                       Através da casa percebe-se a casa                                                                                      Através da província percebe-se a província                                                                       Através do reino percebe-se o reino                                                                                   Através do mundo percebe-se o mundo

Como posso saber da natureza do mundo?                                                                                   É através disso

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

 A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis 
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

terça-feira, 29 de agosto de 2023

A Mário de Andrade ausente [Manuel Bandeira]

Anunciaram que você morreu.

Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá (Pela fôrça persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguem perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá no meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua vida continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora sua falta.



quarta-feira, 28 de junho de 2023

Clarice Lispector

 Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. O seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que o cavalo não tem nome. Basta chama-lo e acerta-se logo com o nome. Ou não se acerta, mas uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: as pessoas enganam-se e pensam que são elas mesmas que estão a relinchar de prazer ou de cólera, as pessoas assustam-se com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Um Deus (Arnaldo Antunes)


Um Deus efêmero

Um Deus com sexo
Um Deus com gênero

E que envelhece

Um Deus com fim

Um Deus assim
Merece prece

 

Um Deus que conta o seu segredo

Um Deus que apronta

Mas tem medo

Um Deus que erra

E recomeça

Merece reza

 

Um Deus que sofre

E que se alegra

Um Deus com sorte

E sem promessa

Um Deus que pensa

Um Deus ateu

Merece crença

 

Um Deus talvez

Volúvel Deus

Um Deus que ovula todo mês

Um Deus que paga a sua comida

Merece a Vida

 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

MAXENCE FERMINE : NEVE

 

Neve

“e amaram-se suspensos num fio de neve”

 

Nada além de branco para cuidar 

Arthur Rimbaud

 

 

1.

Yuko Akita tinha duas paixões.
O haicai.
E a neve.
Haiku é um gênero literário japonês. 
É um poema curto de três versos e dezessete sílabas. 
Nem mais um. A neve é ​​um poema. 
Um poema que cai das nuvens em flocos brancos e leves.
Este poema vem dos lábios do céu, da mão de Deus.
Tem um nome. Um nome de franqueza deslumbrante.
Neve.

 

 

Vento de inverno
Um monge cita
Caminhe na floresta.
                     Issa


2.

O pai de Yuko era um monge xintoísta. 

Ele morava na ilha de Hokkaido, no norte do Japão, onde o inverno é mais longo e rigoroso. Ele ensinou ao filho o poder das forças do cosmos, a importância da fé e do amor pela natureza. 

Ele também lhe ensinou a arte de compor haicai.

Um dia, em abril de 1884, Yuko fez dezessete anos.
Ao sul, em Kyushu, as primeiras cerejeiras começavam 
a florescer. 
No norte do Japão, o mar ainda estava congelado.
A educação ética e religiosa do jovem estava agora completa. 
Chegou a hora de ele escolher uma profissão. 
Por muitas gerações, os membros da família Akita estiveram 
divididos
entre a religião e os militares. 
Mas Yuko não queria se tornar um monge ou um guerreiro.
"Pai", disse ele na manhã de seu aniversário, 
à beira do rio prateado, 
"quero ser poeta."
O monge franziu o cenho quase imperceptivelmente, 
mas mesmo assim revelando uma profunda decepção. 
O sol se refletia nas ondulações da água. 
Um peixe-lua passou entre as bétulas e depois 
desapareceu sob 
a ponte de madeira.
"A poesia não é uma profissão. É um passatempo. 
Poemas são água corrente. Como este rio."
Yuko mergulhou o olhar na água silenciosa e rápida. 
Então ele se virou para o pai e disse:
"É exatamente isso que eu quero fazer. 
Aprender e ver o tempo passar."

terça-feira, 7 de março de 2023

Trecho de "O processo" de Franz Kafka


Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. 

Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. “É possível” diz o porteiro, “mas agora não”. Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.” O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo: “Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa”. Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. “O que é que você ainda quer saber?” pergunta o porteiro, “você é insaciável”. “Todos aspiram à lei”, diz o homem, “como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?” O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra: “Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”.