terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O RIO E O OCEANO


Diz-se que, momentos antes de um rio cair no oceano ele treme
de medo.
Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos
povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar
nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Podemos apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano é que o medo
desaparece.
Porque apenas então o rio compreende que não se trata de
desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é
renascimento.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

 

  1. Ilusões da vida

    Quem passou pela vida em branca nuvem, E em plácido repouso adormeceu;
    Quem não sentiu o frio da desgraça, Quem passou pela vida e não sofreu;

    Foi espectro de homem, não foi homem, Só passou pela vida, não viveu.

     poeta Francisco Otaviano

Conta e Tempo - Frei Antonio das Chagas (1631-1682)


Deus pede hoje estrita conta do meu tempo.

E eu vou, do meu tempo dar-Lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado e não fiz conta.
Não quis, tendo tempo fazer conta,
Hoje quero fazer conta e não há tempo.

Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo em vossa conta.

Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Graças às coisas (Rutger Kopland, poeta e psiquiatra)

 UM


A manhã em que as coisas renascem em que uma luz fraca nasce do acaju, da argentaria, da porcelana. Em que o pão volta a cheirar pão, o bule florido de chá a cheirar chá e o ar a cheirar gente idosa. Em que se ouve sussurrar: "Deus, abençoe também esse dia até à eternidade, amém"


DOIS


A tarde em que as coisas voltam a ser aquela tarde, em que as manchas de luz dançam como borboletas numa vidraça branca agitada, em que a fruteira cheira a fruta, as cadeiras cheiram a verga, o ramo de flores  no vaso, a lilás, a floreira, a terra, na estufa um silêncio de morte, ouvem-se as agulhas de tricô e volta-se a ouvir o folhear do jornal, em que o portão chia e o cascalho estala suavemente...


TRÊS


A noite em que as coisas voltam a querer desaparecer, o tapete vermelho, as cortinas de veludo castanho a desejar a escuridão em que o cachimbo no cinzeiro volta a cheirar fumo, a banana à sua polpa, o leite à leite fumegante antes de nos deitarmos, em que na sala, num silêncio de morte, a palavra ressoa, o livro volta a fechar, tudo se cala e o relógio faz tique taque


QUATRO


A noite em que as coisas voltam a ser sobras de si mesmas, em que o quarto volta a cheirar a lençóis lavados, madeira velha e  lavanda, em que a janela, num silêncio de morte volta a respirar, como cumes que dormem ao vento


CINCO


O momento, chamam-o manhã, tarde ou noite, em que as coisas recomeçam. Chamam-o uma casa em que a luz, os cheiros e os sons chegam e partem. Mas é a morte que procura palavras para o momento em que eu, não importa o que ele diz, sou eu.


sexta-feira, 30 de abril de 2021

 Pois, no seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de “conhecer perfeitamente o outro”: por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro… É terrível de dizer, mas, no fundo, o amante não está querendo saber “quem é” em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível… os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério.


LOU ANDREAS SALOMÉ

 só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas… e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro


LOU ANDREAS SALOMÉ

quarta-feira, 31 de março de 2021

OITO HAIKUS DE MARIA MARTA NARDI

 


não cabe no jardim

a flor desta noite –

lua de outono

 

vento de outono -

as folhas

também caminham

 

samambaia-de-metro

suas folhas dobram

minha vida encurta

 

na antiga estação de trens

trinta anos

passam num segundo

 

campo florido de outono

as cores da infância

numa só paisagem

 

ao longo da estrada

ipês-roxos

saudade da minha avó!

 

à sombra do flamboyant

encontro de amigas –

dia quente

 

vinda do outono -

as folhas, de verde,

trocam de roupa

domingo, 21 de fevereiro de 2021

O Profeta

 

Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão:
Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas.
Encheis a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vos estar sozinho,
Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia.

Dai vossos corações, mas não confieis a guarda um do outro.
Pois somente a mão da vida pode conter nossos corações.
E vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia;
Pois as colunas do templo erguem-se separadamente,
E o carvalho e o cipreste não crescem a sombra um do outro.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Ou isto ou aquilo (Cecília Meireles)

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.