segunda-feira, 24 de novembro de 2025

 

Dos Nossos Males

A nós bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais...


Mario Quintana

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

 Buquê de presságios

De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.

Marcelo Montenegro

terça-feira, 26 de agosto de 2025

 

Autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali oNão Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

Wisława Szymborska

terça-feira, 19 de agosto de 2025

 

Robert Pinsky

"Se pudesse escrever um grande poema, 
deveria ser sobre o quê?"

(Perguntado por quatro alunos poetas das Escolas 
do Illinois para Surdos e Deficientes Visuais)



Fogo: porque é rápido, e pode destruir.
Música: lugar onde a raiva tem o seu lugar.
Amor romântico - aquele que é frio ou estúpido pergunta porquê.
Signo: é assim uma linguagem, cheia de graça,

É assim visível, invisível, clara e escura,
É assim ruidosa e silenciosa e é contida
No interior de um corpo e explode no ar
Fora de um corpo a conquistar a partir da mente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Carmen

Carmen


 O amor é um pássaro rebelde

L'amour est un oiseau rebelle


Que ninguém pode domarQue nul ne peut apprivoiser
E é em vão que nós o chamamosEt c'est bien en vain qu'on l'appelle
Se lhe convém recusarS'il lui convient de refuser
Não adianta nada, nem ameaças ou oraçõesRien n'y fait, menaces ou prieres
Um fala bem, o outro se calaL'un parle bien, l'autre se tait
E é este último que eu prefiroEt c'est l'autre que je prefere
Ele não disse nada mas ele me agradaIl n'a rien dit mais il me plait

O amor, o amor, o amor, o amorL'amour, l'amour, l'amour, l'amour
O amor é o filho da boêmiaL'amour est enfant de boheme
Ele nunca conheceu as leisIl n'a jamais jamais connu de lois
Se você não me ama, eu te amoSi tu ne m'aimes pas je t'aime
Se eu te amo melhor se cuidarSi je t'aime prend garde a toi
Se você não me amaSi tu ne m'aimes pas
Se você não me ama, eu te amoSi tu ne m'aimes pas je t'aime
Mas se eu te amo, se eu te amoMais si je t'aime, si je t'aime
Melhor se cuidarPrends garde a toi

O pássaro que você pensou surpreenderL'oiseau que tu croyais surprendre
Bateu suas asas e voouBattit de l'aile et s'envola
O amor está longe, você pode esperá-loL'amour est loin, tu peux l'attendre
Você não espera mais, ele está aquiTu ne l'attends plus, il est la
Em torno de você, depressa, depressaTout autour de toi, vite, vite
Ele se vai e depois voltaIl vient, s'en va puis il revient
Você acredita que o prendeu, ele te evitaTu crois le tenir, il t'evite
Você acredita que o está evitando, ele te prendeTu crois l'eviter, il te tient

O amor, o amor, o amor, o amorL'amour, l'amour, l'amour, l'amour
O amor é o filho da boêmiaL'amour est enfant de boheme
Ele nunca conheceu as leisIl n'a jamais jamais connu de lois
Se você não me ama, eu te amoSi tu ne m'aimes pas je t'aime
Se eu te amo melhor se cuidarSi je t'aime prend garde a toi
Se você não me amaSi tu ne m'aimes pas
Se você não me ama, eu te amoSi tu ne m'aimes pas je t'aime
Mas se eu te amo, se eu te amoMais si je t'aime, si je t'aime
Melhor se cuidarPrends garde a toi


sábado, 26 de julho de 2025

sexta-feira, 25 de julho de 2025

 "Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar: A vida é uma grande dança."

Paulina Chiziane

 Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.

 

Manoel de Barros

domingo, 6 de julho de 2025

 Nada podeis contra o amor.

Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.

Eugénio de Andrade

 Poema de Geni Nunes.


Impecável

Tudo em linha reta, combinado previsto e controlado

dizia nunca ter sentido nenhuma inveja

Não se permitia nenhuma gula e engolia só a ira

Preguiça jamais, luxúria nem pensar

De tanto temer o fogo congelou seus desejos e com vergonha do orgulho rebaixou suas alegrias e o sorriso alheio lhe ofendia mas, nós pecadores que você tanto repudia e tanto deseja te convidamos a brincar conosco nesse lamaçal

Talvez tenha chegado a hora de não ser mais tão impecável.

Urgentemente, de Eugénio de Andrade

 É urgente o amor

É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

 

Brincos Enormes, poema de Charles Bukowski

saio para buscá-la ela está em alguma missão ela está sempre cheia de missões muitas coisas para fazer. nunca tenho nada para fazer. ela sai de seu apartamento vejo-a se aproximar do meu carro ela vem descalça vestida de modo casual exceto por enormes brincos. acendo um cigarro e quando ergo os olhos ela está estirada no meio da rua uma rua bastante movimentada todos os seus 50 quilos tão magníficos quanto qualquer coisa que você possa imaginar ligo o rádio e espero ela se levantar. ela o faz. abro a porta do carro. ela entra. afasto-me do cordão da calçada. ela gosta da canção que toca no rádio e aumenta o volume. ela parece gostar de todas as canções ela parece conhecer todas as canções cada vez que a vejo ela parece ainda melhor 200 anos atrás eles a teriam queimado em um poste agora ela passa seu rímel enquanto nosso carro segue adiante