segunda-feira, 4 de novembro de 2019

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Poesias. Fernando Pessoa.

domingo, 3 de novembro de 2019

VIRTÚ e FORTUNA

Os dois pólos que se desenrolará a ação política.
"VIRTÚ é a qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos, o pré-requisito da liderança". Já a FORTUNA é o acaso, o curso da história, o destino cego, o fatalismo, a necessidade natural.


(Teoria Maquiavélica)

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Manoel de Barros
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
Manoel de Barros

domingo, 13 de outubro de 2019

A arte de viver é uma arte de navegação difícil entre a razão e a paixão, a sabedoria e a loucura, a prosa e a poesia, sempre correndo o risco de nos petrificarmos na razão ou soçobrarmos na loucura. Viver de prosa é apenas sobreviver. Viver é viver poeticamente (Morin, 2005: 141).

A poética do devaneio

nos devaneios mais solitários, quando evocamos os entes desaparecidos, quando idealizamos os entes que nos são queridos, quando, nas nossas leituras, somos bastante livres para viver como homem e mulher, sentimos que a vida inteira se duplica – que o passado se duplica, que todos os seres se duplicam na sua idealização, que o mundo incorpora todas as belezas das nossas quimeras(Bachelard, 1965: 69).

terça-feira, 3 de setembro de 2019

João, no Capítulo 4, versículo 24


O sopro gera o movimento. 
O movimento rompe a inércia. 
Rompida a inércia desabrocha a vida. 
A vida faz nascer a liberdade. 
E a liberdade é o caminho do ser para que se possa sempre ser.

sábado, 22 de junho de 2019

Não se apaixone por pessoas como eu.
Eu te levarei a museus,
A parques e monumentos,
Te beijarei em todos os lugares mais bonitos,
Para que você nunca volte neles sem sentir meu gosto como sangue na sua boca.
Eu vou te destruir das formas mais belas possíveis,
E depois eu vou te deixar,
E você finalmente vai entender porque tempestades recebem o nome de pessoas.
                                         Caitlyn Siehl

sábado, 1 de junho de 2019

"Ser estrangeiro é inevitável, necessário, desejável. Salvo quando cai a noite"
Roland Barthes

sobre a solidão... (por Peter Pall Pelbert)

https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2012/12/19/como-viver-so-palestra-com-peter-pal-pelbart-video-do-4o-seminario-vida-coletiva-seminarios-internacionais-para-a-27a-bienal-de-sao-paulo-abaixo-a-transcricao-integral-da-p/

Que solidão absoluta é essa que Deleuze reivindica, por exemplo, quando se refere a Nietzsche, Kafka, Godard e tantos outros?
Diz ele: "É a solidão mais povoada do mundo". O que o interessa é que do fundo dessa solidão se possa multiplicar os encontros não necessariamente com pessoas, mas também com movimentos, com ideias, com acontecimentos, com entidades.
Diz Deleuze: "Nós somos desertos, mas povoados de tribos, passamos o nosso tempo arrumando essas tribos, dispondo-as de outro modo, eliminando algumas delas, fazendo prosperar outras. E todos esses povoados todas essas multidões não impedem o deserto que é a nossa própria ascese. Ao contrário, essas tribos, essas multidões, o habitam, passam por ele, passam sobre ele. O deserto, a experimentação sobre si mesmo é a nossa única identidade, nossa única chance para todas as combinações que nos habitam".

sexta-feira, 31 de maio de 2019


...deve ser a obra o principal fundamento para se pensar um artista, e não o contrário. Devem ser as suas criações, suas invenções plásticas, os instrumentos privilegiados para se compreender o autor.
E isto por que o sentido de uma obra de arte não é explicável pela vida do artista, como escreveu Merleau-Ponty (1966, pp. 34-35)

[...] isso a que se chama inspiração deve ser tomado ao pé da letra, pois há realmente inspiração e expiração do Ser, respiração no Ser, ação e paixão tão pouco discerníveis, que já não se sabe mais quem vê e quem é visto, quem pinta e quem é pintado. Diz-se que um homem nasceu no momento em que aquilo que, no fundo do corpo materno, não passava de um visível virtual torna-se ao mesmo tempo visível para nós e para si. A visão do pintor é um nascimento continuado. (Merleau-Ponty, 1964, p. 32)

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062014000200013

quarta-feira, 15 de maio de 2019

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. 
Em cofre não se guarda coisa alguma. 
Em cofre perde-se a coisa à vista. 
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. 
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. 
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro 
Do que de um pássaro sem vôos. 
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: 
Para guardá-lo: 
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: 
Guarde o que quer que guarda um poema: 
Por isso o lance do poema: 
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cícero

sábado, 6 de abril de 2019

provérbio Zen

 O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita:
- Aonde você está indo?
E o homem a cavalo responde:
- Não sei. Pergunte ao cavalo!

sábado, 2 de março de 2019

Em suas Memórias, Lou Andreas-Salomé sintetizou sua concepção sobre a vida nas seguintes palavras:
A vida humana – na verdade, toda a vida – é poesia. Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia, fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade inviolável, ela nos vive”.
HINO À VIDA (1881)
de Lou Salomé [1861 – 1937]
Tão certo quanto o amigo ama o amigo,
Também te amo, vida-enigma
Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado,
mesmo que me tenhas dado prazer ou dor.
Eu te amo junto com teus pesares,
E mesmo que me devas destruir,
Desprender-me-ei de teus braços
Como o amigo se desprende do peito amigo.
Com toda força te abraço!
Deixa tuas chamas me inflamarem,
Deixa-me ainda no ardor da luta
Sondar mais fundo teu enigma.
Ser! Pensar milênios!
Fecha-me em teus braços:
Se já não tens felicidade a me dar
Muito bem: dai-me teu tormento.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Quando as portas da percepção se abrirem, tudo aparecerá como realmente é: infinito (W. Blake)
 “O Poder disse ao Mundo, tu és meu ! E o Mundo o aprisionou em seu próprio trono inerte. O amor disse ao mundo: eu sou teu! E o mundo o deixou livre para viver o Mundo.” (R. Tagore 
O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar. (W. Reich, Escuta Zé ninguém)