A arte tem o poder de perturbar os confortados e confortar os perturbados
sábado, 26 de julho de 2025
sexta-feira, 25 de julho de 2025
Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros
domingo, 6 de julho de 2025
Poema de Geni Nunes.
Impecável
Tudo em linha reta, combinado previsto e controlado
dizia nunca ter sentido nenhuma inveja
Não se permitia nenhuma gula e engolia só a ira
Preguiça jamais, luxúria nem pensar
De tanto temer o fogo congelou seus desejos e com vergonha do orgulho rebaixou suas alegrias e o sorriso alheio lhe ofendia mas, nós pecadores que você tanto repudia e tanto deseja te convidamos a brincar conosco nesse lamaçal
Talvez tenha chegado a hora de não ser mais tão impecável.
Urgentemente, de Eugénio de Andrade
É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.