sexta-feira, 30 de março de 2018
domingo, 12 de novembro de 2017
UMA PALAVRA SOBRE ESTATÍSTICAS(*)
Em cada cem pessoas
Aquelas que sempre sabem mais:
cinquenta e duas.
Inseguras de cada passo:
quase todo o resto.
Prontas a ajudar,
desde que não demore muito:
quarenta e nove.
Sempre boas,
porque não podem ser de outra maneira:
quatro — bem, talvez cinco.
Capazes de admirar sem invejar:
dezoito.
Levadas ao erro
pela juventude (que passa):
sessenta, mais ou menos.
Aquelas com quem é bom não se meter:
quarenta e quatro.
Vivem com medo constante
de alguma coisa ou alguém:
setenta e sete.
Capazes de felicidade:
vinte e alguns, no máximo.
Inofensivos sozinhos,
selvagens em multidões:
mais da metade, por certo.
Cruéis,
quando forçados pelas circunstâncias:
é melhor não saber
nem aproximadamente.
Peritos em prever:
não muitos mais
que os peritos em adivinhar.
Tiram da vida nada além de coisas:
trinta
(mas eu gostaria de estar errada).
Dobradas de dor,
sem uma lanterna na escuridão:
oitenta e três,
mais cedo ou mais tarde.
Aqueles que são justos:
uns trinta e cinco.
Mas se for difícil de entender:
três.
Dignos de simpatia:
noventa e nove.
Mortais:
cem em cem —
um número que não tem variado.
Wislawa Szymborska
Aquelas que sempre sabem mais:
cinquenta e duas.
Inseguras de cada passo:
quase todo o resto.
Prontas a ajudar,
desde que não demore muito:
quarenta e nove.
Sempre boas,
porque não podem ser de outra maneira:
quatro — bem, talvez cinco.
Capazes de admirar sem invejar:
dezoito.
Levadas ao erro
pela juventude (que passa):
sessenta, mais ou menos.
Aquelas com quem é bom não se meter:
quarenta e quatro.
Vivem com medo constante
de alguma coisa ou alguém:
setenta e sete.
Capazes de felicidade:
vinte e alguns, no máximo.
Inofensivos sozinhos,
selvagens em multidões:
mais da metade, por certo.
Cruéis,
quando forçados pelas circunstâncias:
é melhor não saber
nem aproximadamente.
Peritos em prever:
não muitos mais
que os peritos em adivinhar.
Tiram da vida nada além de coisas:
trinta
(mas eu gostaria de estar errada).
Dobradas de dor,
sem uma lanterna na escuridão:
oitenta e três,
mais cedo ou mais tarde.
Aqueles que são justos:
uns trinta e cinco.
Mas se for difícil de entender:
três.
Dignos de simpatia:
noventa e nove.
Mortais:
cem em cem —
um número que não tem variado.
Wislawa Szymborska
domingo, 29 de outubro de 2017
"Para liquidar os povos - dizia Hubl -, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-lhes os livros, a cultura, a história. E outra pessoa qualquer escreve-lhes outros livros, dá-lhes outra cultura e inventa-lhes outra história. Em seguida, o povo começa lentamente a esquecer o que é e o que era. O mundo à sua volta esquece ainda mais depressa."
| Milan Kundera |
- "O Livro do Riso e do Esquecimento"
- "O Livro do Riso e do Esquecimento"
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
(...) a imagem não é um simples corte praticado no mundo dos aspectos visíveis. É uma impressão, um rastro, um traço visual do tempo que quis tocar, mas também de outros tempos suplementares - fatalmente anacrônicos, heterogêneos entre eles - que, como arte da memória, não pode aglutinar. (DIDI-HUBERMAN)
sábado, 23 de setembro de 2017
“É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós”. F. KAFKA
domingo, 10 de setembro de 2017
Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
em "Dia do mar", 1947
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assinar:
Postagens (Atom)