sexta-feira, 30 de março de 2018

Olho muito tempo o corpo de um poema - Ana Cristina Cesar

olho muito tempo o corpo de um poema até perder de vista o que não seja corpo e sentir separado dentre os dentes um filete de sangue nas gengivas

domingo, 12 de novembro de 2017


 UMA PALAVRA SOBRE ESTATÍSTICAS(*)

 Em cada cem pessoas
 Aquelas que sempre sabem mais:
 cinquenta e duas.
 Inseguras de cada passo:
 quase todo o resto.
 Prontas a ajudar,
 desde que não demore muito:
 quarenta e nove.
 Sempre boas,
 porque não podem ser de outra maneira:
 quatro — bem, talvez cinco.
 Capazes de admirar sem invejar:
 dezoito.
 Levadas ao erro
 pela juventude (que passa):
 sessenta, mais ou menos.
 Aquelas com quem é bom não se meter:
 quarenta e quatro.
 Vivem com medo constante
 de alguma coisa ou alguém:
 setenta e sete.
 Capazes de felicidade:
 vinte e alguns, no máximo.
 Inofensivos sozinhos,
 selvagens em multidões:
 mais da metade, por certo.
 Cruéis,
 quando forçados pelas circunstâncias:
 é melhor não saber
 nem aproximadamente.
 Peritos em prever:
 não muitos mais
 que os peritos em adivinhar.
 Tiram da vida nada além de coisas:
 trinta
 (mas eu gostaria de estar errada).
 Dobradas de dor,
 sem uma lanterna na escuridão:
 oitenta e três,
 mais cedo ou mais tarde.
 Aqueles que são justos:
 uns trinta e cinco.
 Mas se for difícil de entender:
 três.
 Dignos de simpatia:
 noventa e nove.
 Mortais:
 cem em cem —
 um número que não tem variado.
  Wislawa Szymborska

domingo, 29 de outubro de 2017

"Para liquidar os povos - dizia Hubl -, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-lhes os livros, a cultura, a história. E outra pessoa qualquer escreve-lhes outros livros, dá-lhes outra cultura e inventa-lhes outra história. Em seguida, o povo começa lentamente a esquecer o que é e o que era. O mundo à sua volta esquece ainda mais depressa."
| Milan Kundera |
- "O Livro do Riso e do Esquecimento"

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(...) Noite vazia. Noite indecisa. Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
Carlos Drumond de Andrade
(...) a imagem não é um simples corte praticado no mundo dos aspectos visíveis. É uma impressão, um rastro, um traço visual do tempo que quis tocar, mas também de outros tempos suplementares - fatalmente anacrônicos, heterogêneos entre eles - que, como arte da memória, não pode aglutinar. (DIDI-HUBERMAN)

sábado, 23 de setembro de 2017

“É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós”. F. KAFKA

domingo, 10 de setembro de 2017

 Retrato de uma princesa desconhecida

      Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
 Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
      Para que a sua espinha fosse tão direita
         E ela usasse a cabeça tão erguida
    Com uma tão simples claridade sobre a testa
 Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
     De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
     Servindo sucessivas gerações de príncipes
         Ainda um pouco toscos e grosseiros
            Ávidos cruéis e fraudulentos

         Foi um imenso desperdiçar de gente
        Para que ela fosse aquela perfeição
           Solitária exilada sem destino
em "Dia do mar", 1947

                      Sophia de Mello Breyner Andresen