CHUVA
A partir do momento que não me molha mais,
deixou de ser interessante.
Deus pede hoje estrita conta do meu tempo.
E eu vou, do meu tempo dar-Lhe conta.UM
A manhã em que as coisas renascem em que uma luz fraca nasce do acaju, da argentaria, da porcelana. Em que o pão volta a cheirar pão, o bule florido de chá a cheirar chá e o ar a cheirar gente idosa. Em que se ouve sussurrar: "Deus, abençoe também esse dia até à eternidade, amém"
DOIS
A tarde em que as coisas voltam a ser aquela tarde, em que as manchas de luz dançam como borboletas numa vidraça branca agitada, em que a fruteira cheira a fruta, as cadeiras cheiram a verga, o ramo de flores no vaso, a lilás, a floreira, a terra, na estufa um silêncio de morte, ouvem-se as agulhas de tricô e volta-se a ouvir o folhear do jornal, em que o portão chia e o cascalho estala suavemente...
TRÊS
A noite em que as coisas voltam a querer desaparecer, o tapete vermelho, as cortinas de veludo castanho a desejar a escuridão em que o cachimbo no cinzeiro volta a cheirar fumo, a banana à sua polpa, o leite à leite fumegante antes de nos deitarmos, em que na sala, num silêncio de morte, a palavra ressoa, o livro volta a fechar, tudo se cala e o relógio faz tique taque
QUATRO
A noite em que as coisas voltam a ser sobras de si mesmas, em que o quarto volta a cheirar a lençóis lavados, madeira velha e lavanda, em que a janela, num silêncio de morte volta a respirar, como cumes que dormem ao vento
CINCO
O momento, chamam-o manhã, tarde ou noite, em que as coisas recomeçam. Chamam-o uma casa em que a luz, os cheiros e os sons chegam e partem. Mas é a morte que procura palavras para o momento em que eu, não importa o que ele diz, sou eu.
Pois, no seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de “conhecer perfeitamente o outro”: por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro… É terrível de dizer, mas, no fundo, o amante não está querendo saber “quem é” em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível… os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério.
só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas… e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro
não cabe no jardim
a flor desta noite –
lua de outono
vento de outono -
as folhas
também caminham
samambaia-de-metro
suas folhas dobram
minha vida encurta
na antiga estação de trens
trinta anos
passam num segundo
campo florido de outono
as cores da infância
numa só paisagem
ao longo da estrada
ipês-roxos
saudade da minha avó!
à sombra do flamboyant
encontro de amigas –
dia quente
vinda do outono -
as folhas, de verde,
trocam de roupa