quarta-feira, 23 de maio de 2018

A L A Z Ã O
O alazão do sangue salta, o alazão, lázaro, se lança. Meu alazão
se lança, olha sua pança, lázaro, a pança, meu alazão sem olhos
se lança, de uma loja  velha e encarquilhada, de uma loja longeva
e dourada, de uma corcunda, meu alazão sem olhos me apruma,
meu alazão sem olhos se lança,  da minha própria pança:
alazão com suas asas de ganso.

*

Para um cavalo sem olhos tudo é paisagem. Bem dentro
tudo é paisagem. Bem dentro
tudo é fundo.
Não há finais, nem quebras (quiebres). Há, sim,
um fim rotundo. Como um retumbo.
Há uma ruptura do mundo. Como um único quiebre.
Há a quebrada, de onde meu cavalo se lança. Meu cavalo sem olhos.
Meu alazão
com asas de ganso.

*

Para o cavalo que se lance
de um desfiladeiro
para o que se lance primeiro
há um solo suave. Para um cavalo-ave
o verdadeiro.
Para o cavalo que chegue
primeiro.

*

De um desfiladeiro, a quem chegue primeiro, desde um lugar inventado
ou verdadeiro, meu cavalo se lança, lázaro, meu cavalo sem olhos
se lança, um buraco negro em sua pança: outro desfiladeiro,
para quem  chegue primeiro. Um mais fundo, para quem chegue
do fundo ao mais fundo,  de sua pança sem fundo,
a quem chegue primeiro, há a queda mais longa,  há o verdadeiro.
A pança, lázaro, olha sua pança, enfia-te nela: avança, retrocede,
avança, a pança, lázaro,  a pança! Abra-a com uma lança antes
que rebente, enfia-te em seu ventre,  enfia-te por dentro, no fundo
sem fundo de seu ventre sem ventre, abra-lhe a pança,
com uma faca ou garfo, a pança, lázaro,
enfia-te nela ou arranca dali toda a paisagem.

*

Aí está
o limite, ao final do fundo
ao fundo sem fundo do sentido. O fundo.
O não-limite: o limite
contido no fundo,
no
fundo
sem fundo do sentido, no fundo sem
fundo contido. No fundo, são fundo e fim,
no fundo sem fundo, contido.

*

Olha como corre, como tem corrido, meu cavalo, meu Cristo Equino,
olha como vai pelo caminho: sem caminho, olha como se vê voando,
como vai voando. Olha como vai caindo, se vê caindo. Olha
com que fé se lança, olha como brilha sua pança, olha como de baixo
parece um pedaço, nada mais que um pedaço, um braço, mão
aberta, caindo. Olha como tapa o sol e é uma perna, caindo,
um dedo, olha como tapa o sol seu corpo, olha como segue
galopando ao voo.

*

Já em pleno ar, meu cavalo relincha, ainda relincha, meu cavalo,
em queda e tudo, ainda relincha, ainda repara, ainda para, ainda
se queixa,  ainda se incha. E cai expondo os dentes, feliz e livre,
mostrando o avental ou dente, expondo, sim, a dentadura,
cai, em fazenda  segura, mostrando o pré-molar, meu cavalo
que não sabe voar, meu cavalo-galinha, cai expondo os dentes,
expondo a gengiva, mostrando as cáries: a carência.

*

Para um cavalo sem olhos
a paisagem é infinita. Repito:
Para um cavalo sem olhos, lázaro,
não há limite. Não o imite.
Contenta-te, lázaro, em olhar no fundo
de seus olhos sem fundo.

*

Imagina, lázaro, uma quadrilha de cavalos, em pleno ar, suspensos.
Imagina-os tensos. Inquietos. Como gotas galopando, sem cair.
Imagina como devem ver-se esses cavalos espraiados. Imagina
como devem ver-se chover.

*

Que festa
quando meu cavalo enfim
cair
que festa quando se rebente
quando termine
em seu próprio ventre
de chover
que
festa
quando meu cavalo termine
de cair
quando rebente
de dentro de seu próprio ventre
quando se ventile
de dentro de seu próprio ventre
que festa
quando meu cavalo enfim
cair
quando se rebente e fiquem
espraiados
nas pedras
os pedaços


(tradução de Ricardo Domeneck)

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